terça-feira, 30 de outubro de 2007

Bricostory

Bricostory, de Andreea Padureanu [Lar Feliz]
(Romênia, 2007)

Bricostory é o espaço em que a relação entre os personagens Ana e Paul se revelará uma relação que passa longe do que poderia-se esperar de um casal prestes a formar um novo lar. Um supermercado, ou ainda, uma espécie de mercado Wallmart, daqueles em que parece ser possível comprar desde os pisos da casa, até móveis ou artigos mais descartáveis.

Apesar de se concentrar num espaço como o supermercado, Bricostory tem a intenção de estar muito além deste espaço. Ou melhor, apresenta o mercado como um local para o desenvolvimento do desentendimento entre os personagens, como se os seus atos e movimentos de procurar objetos básicos para o lar fossem um pretexto para a contraposição com um entendimento mínimo que faltaria a um casal que formula o seu futuro lar. Andreea Padureanu tem a intenção de estar para além da situação de Bricostory, de usar o espaço com uma espécie de metáfora para um momento do casal, como a diretora concretiza na cena em que, depois de muito andar pelos corredores do mercado e de se desentenderem em silêncio, Ana e Paul decidem-se sentar numa dessas cozinhas montadas em lojas de imóveis. O enquadramento deste plano já diz muito sobre o que Padureanu parece buscar: sublinhar o que acontece entre o casal, no espaço entre eles, ou ainda, o que falta nesse espaço. Uma intimidade em momento de crise e ambigüidade, mesmo que de forma momentânea. A cozinha faz parte de um espaço que permite que o casal saia da ação de montar uma casa para já se encontrar dentro dela, tão artificialmente como eles já se encontram um em relação ao outro naquela situação. Distantes, separados por diversos objetos de casa, que poderiam uni-los, mas que estão aqui para indicar movimentos opostos, desencontrados.

O uso do supermercado como estereótipo – um lugar em que as relações não acontecem - não impede que Padureanu tenha olhares muito particulares para ele, o que a diretora consegue construir através de alguns ângulos e enquadramentos que constroem uma visão singular para o supermercado. No entanto, Bricostory levanta uma pergunta que pode ser útil para todo o cinema, toda a representação de uma estória. Até que ponto a utilização de um espaço como motivação para a revelação da falta de comunicação entre dois personagens não se nutre de uma relação já bastante estereotipada e revista no cinema? É claro que o problema principal não é o estereotipo em si – o supermercado como meio da problematização da relação de um casal – mas até que ponto o estereótipo é capaz de sustentar uma crise entre dois personagens. Assim, sentimos que já vimos essa história algumas vezes antes. Mas o supermercado não é suficiente para a diretora apresentar essa crise e Padureanu sente necessidade de ir em busca de mais um elemento que construa a distância entre o casal: o atendente atencioso, como um contraponto ao marido ocupado. Este é um filme de contrapontos, bem no espírito que o título em português traz em relação a situação que o filme apresenta.

Esses aspectos formais não são evidenciados aqui apenas por uma questão estética e de composição de planos, mas porque o melhor e pior de BricoStory vêm dessa mesma questão. Se o plano citado anteriormente tem a capacidade de representar uma situação para a qual a diretora almeja alcançar através de uma solução estética, ele também indica que tal composição não é suficiente para sustentar um filme. Aliás, soluções estéticas não faltam, e insinuam, de forma eficiente, como todos aqueles objetos mais submetem o casal do que o integra a um lar feliz.

Bricostory reafirma como o supermercado é um lugar de passagem, através de um plano aberto do supermercado, com pessoas que passam. Mas uma vez a diretora é eficiente em sua representação, como nos diversos exemplos em que constrói a distância entre os dois personagens, em espaços opostos ou até mesmo no fora de quadro, já que Paul precisa se ausentar com freqüência para atender ao celular. Mas por ser um filme eficiente, Bricostory permite indagar: por que não ir além do que uma imagem pode nos dizer tão imediatamente?
Juliana Cardoso

Cine Odeon – sáb 27 de out 15h30
Cine Santa – qua, 31 de out 20h

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