terça-feira, 4 de novembro de 2008

Cinema Documentário (sessão NAC3)

A sessão Nacional 3 é um prato cheio para os amantes do cinema documentário e esse post vai falar um pouco sobre eles, os documentários.

Cocais, a cidade reinventada é ótimo material para uma aula de teoria do documentário. Se aprendemos bem a lição de João Moreira Salles e seu 'Santiago' (2007), veremos em Cocais uma imagem forçada e obtida a qualquer custo, exemplo de tudo aquilo que não se deve fazer. O próprio João Salles tem uma boa definição sobre a diferença entre documentário e ficção, que passa justamente pela questão da ética, uma vez que no documentário tratam-se de pessoas 'reais' cujas vidas existem antes do filme e vão continuar depois dele.

O filme é feito em uma cidade-manicômio e a questão se faz de forma muito clara: vale filmar loucos? Eu acho que não. Isso faz muito sentido lá para os filmes do Wiseman com sua obsessão pelas idéias de cidadania e denúncia. Particularmente, não tenho interesse por esse tipo de filme, interessam-me as pessoas e não as instituições. Fico me perguntando o que aquelas pessoas ganharam com aquilo. A reciprocidade é nula e Cocais não fala de pessoas, mas as utiliza sem que elas tenham real consciência do que está acontecendo ou da proporção do ato da filmagem. A cartela final diz tratar-se de 'uma cidade que se reinventou através de um filme ou um filme que foi inventado por uma cidade'. Não vejo nenhuma das duas coisas. Trata-se, sim, de um filme arrancado de uma cidade com toda a força e desonestidade possíveis.

Enquadramentos de olhos vesgos, pessoas prestando-se ao ridículo, dentes faltando - a idéia de documentário apoiado na "lógica do pior". Consuelo Lins, autora de 'O Documentário de Eduardo Coutinho' nos ensina um pouco sobre o papel da equipe e da montagem em proteger os entrevistados de um documentário: "Houve momentos nos quais foi preciso defender o entrevistado dele mesmo, em que a lógica do pior – central nos programas sensacionalistas e populares – impôs-se, e o que se ouviu foi a pior história, a maior desgraça, a grande humilhação. Porque o desejo dos moradores, em muitos casos, é o de escapar do isolamento, ganhar visibilidade a qualquer preço. O confronto com esse tipo de exibicionismo, indissociável do voyeurismo de espectador, é incontornável (...)" [SOBRE 'EDIFÍCIO MASTER' (2002)].

O que Cocais faz, ao invés de proteger, é atacar. Cheguei a me interessar por aquilo que as personagens diziam brevemente, mas não tive a chance de ouví-las. Elas não têm voz, quase não falam. O que interessa ao filme é a construção de uma estética da esquisitice, é - como a um adolescente rebelde - chocar.

Numa outra direção, temos A Tal Guerreira. Realizado por um antropólogo, o filme tem relação com sua pesquisa sobre religiões afro-brasileiras. Vemos aqui se confundirem questões do Cinema e da Antropologia no que diz respeito à relação que se estabelece com o outro (sempre muito densa em uma etnografia). A Tal Guerreira é uma alegria para os olhos e para os ouvidos. Marcelo Caetano tem uma preocupação enorme em abordar as crenças populares de um ponto de vista etnográfico, conferindo àquelas declarações o estatuto de um fato social, independente de qualquer questionamento que pudesse ser feito ao conteúdo filmado. O diretor adiciona depoimentos das pessoas que alcançaram seus objetivos ou foram agraciadas pelo espírito de Clara Nunes, demonstrando de que forma a realidade é alterada concretamente pela crença através da idéia da 'eficácia simbólica' (Lévi-Strauss, 1949).

A Tal Guerreira apresenta como a cantora seguiu sendo (re)apropriada culturamente de diferentes formas. Seja na Umbanda, no candomblé, na igreja católica, numa roda de samba ou através de performances de uma travesti, Clara é um mito e é bem aqui que reside a grandiosidade do filme. Ele vai de encontro ao 'desencantamento do mundo' previsto por Max Weber e fala de um mundo contemporâneo onde, muitas vezes, há espaço para o mito em detrimento das explicações racionais (mythos > logos).


A televisão e o aparelho de som em pleno culto umbandista falam de uma dimensão de transformação da cultura, através da qual a tradição é síntese de reprodução e variação. Isso porque a cultura não é maior ou menor de acordo com o tempo, ela apenas vive. A performance da transformista que faz shows como Clara Nunes é um ponto de encontro entre o sagrado e o profano, questionando a dicotomia com a qual muitas vezes insistimos em pensar o mundo. O filme é extremamente feliz em trazer para as telas uma vida social rica, complexa e, acima de qualquer outra coisa, viva. Uma preciosidade.

Terminando a sessão, Muito Além do Chuveiro é um filme delicioso talvez por tentar entender, o que também foi um questionamento das investigações de Leví-Strauss, "porque é que as pessoas são felizes", como elas são felizes. A dinâmica é muito bem realizada, apresentando primeiro personagens em um plano geral e depois indo ao encontro deles em seus ambientes íntimos. A diretora, sensivelmente, percebeu esse caminho entre intimidade e publicidade orientando toda a lógica do karaokê. A montagem, então, percorre o sentido inverso daquele trilhado pelas personagens na vida real. O filme evidencia os aspectos de 'fama' e 'público', mostrando a importância dessas categorias na vida dos sujeitos que se inserem nessa prática.

Tony Fafá nos recebe na cozinha de sua casa, onde costuma cantarolar enquanto prepara pratos para jantar com os filhos. Depois do jantar, os filhos saem com as namoradas e... ele vai cantar! Letícia está em seu carro, à noite, rodando pelas ruas da cidade como faz freqüentemente sem que haja uma câmera ligada. Vemos Letícia pelo espelho retrovisor e, enquanto nos divertimos com suas estórias, podemos também apreciar ótimos enquadramentos e uma estética noturna super cuidadosa. O foco manual utilizado nas garrafas do bar é também exemplo da competência técnica que ajuda a fazer desse filme 18 minutos de boa diversão.

Diego Madih

REPRISE: SAB 01/11, 12H30 - CAIXA 1

2 comentários:

  1. coletivo de leitores do blog nesta noite4 de novembro de 2008 04:17

    diego,

    aqui em assembléia pensamos que você deve ter dupla personalidade: como pode alguém que se emociona verdadeiramente com o filme da kawase fazer uma afimação do tipo ~ "vale filmar loucos? Eu acho que não."?

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  2. definitivamente, foi bom mesmo a gente ter trocado os curtas! Gostei muito das referencias antopológicas, se encaixaram bem no texto.
    É sempre bom tb ter duas opiniões sobre um mesmo curta! "as pessoas me importam mais que as instituições", falou bonito!

    Ciro

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